Nº 1
•
Poeta e curador, São Paulo

Omar Khouri
São Paulo, 22 de setembro de 2026. Combinei de conversar com o Omar em sua casa, no bairro de Higienópolis. Era um fim de tarde chuvoso em que tinha passado o dia visitando o ateliê de alguns artistas. Estava tomado por um sentimento de responsabilidade: apesar dos projetos e da boa convivência que tenho com Omar Khouri, propor este registro me pareceu um desafio de outra natureza.
O que eu posso contar sobre este poeta, professor, artista e curador que ainda não foi dito? Trata-se de um homem que fundou uma revista de arte com mais de 50 anos de existência, a revista Artéria, e não faltam registros de sua convivência com nomes como os de Décio Pignatari e dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos.
Foi com essas questões que entrei no prédio modernista em que vive meu entrevistado, subi por um elevador encoberto de madeira e dourados e, quando cheguei, Omar me esperava com um sorriso gentil. Nos sentamos nas poltronas de sua sala, em frente a dois quadros do Ranchinho. Expliquei que queria saber de sua vida, mas não só isso: queria entender o que o move. Ele me olhou de forma serena e começou a tecer lembranças.
— Bom, desde que eu me conheço por gente, eu aprecio essa coisa de escrita, desenho e pintura. Desde a observação de certos cadernos de minhas tias, que eram normalistas. Eu as via executando certas tarefas em desenho pedagógico. Sempre desenhando, com cinco, seis anos já começava a rabiscar.
As tias irmãs da sua mãe?
— Sim. Eram normalistas, faziam o que o pessoal chama de magistério. Era famosa a escola de Pirajuí. Tinha uma grande professora lá chamada Maud Pires Arruda. Foi professora das minhas tias e minha professora durante muitos anos. Ela ensinava aquarela, passando pelo guache e pela pintura a óleo. Com doze anos eu já estava pintando a óleo e continuei até os vinte e seis, quando resolvi parar e só retomar muito mais tarde.
E a professora Maud chegou a ver alguma revista Artéria?
— Ela chegou a ver as primeiras, porque a Artéria começou em 1975. Morreu com quase cem anos e sempre incentivou muito.
Você é artista, curador, mas é professor também, né?
— Justamente. Tive grandes professores lá em Pirajuí, que são os meus maiores exemplos. Eu procurei pegar a parte positiva dos meus professores e seguir essa parte positiva. Tanto é que minha carreira não foi nenhum sacrifício. Eu trabalhei quase cinquenta anos como professor e sempre foi um grande prazer.
“O antologista é um curador. Só que ele faz a curadoria junto ao acervo poético.”
Vamos do professor ao curador?
— Fiz curadorias porque eu promovi exposições e organizei antologias. O antologista é um curador, só que ele faz a curadoria junto ao acervo poético. Duas coisas que sempre respeitei: aluno dormindo durante a aula e aluno desenhando durante a aula, porque eu sei que é perfeitamente viável você desenhar e prestar atenção à aula ao mesmo tempo. Quando eu tinha vários alunos desenhistas, promovi várias exposições e levei a exposição de poesia visual também. Fiz inclusive uma exposição só da Regina Silveira, de fotos que fiz do Jorge Luis Borges e de desenhos de humor dos alunos.
Como assim você fez fotos do Jorge Luis Borges? Me conta essa história.
— Eu saí pela primeira vez do Brasil em janeiro de 1984. Fui até Buenos Aires. Procurei o telefone do Borges, que continuava no nome da mãe, dona Leonor. Até que eu falei: “só pode ser esse telefone”. E era! Liguei e pude marcar visita. Estive lá num domingo e voltei na segunda-feira. Conversei bastante com ele, em espanhol, obviamente — devo ter errado bastante. Li trechos de enciclopédia e ele perguntou algumas coisas sobre o Brasil. E lamentou muito o fato de eu nunca ter ido para a Europa. Disse: “Você precisa ir até a Europa”.
E você foi?
— Fui no ano seguinte, pela primeira vez. Depois fui muitas vezes. Fiz pós-doc em Portugal, morei seis meses em Lisboa. Foi uma experiência muito compensadora.
Uma vez me comentaram que você chegou a conhecer a Tarsila do Amaral.
— Quando a gente é muito jovem, a gente tem aquela coisa chamada ousadia, né? Naquela época havia uma lista telefônica de São Paulo que era uma laje de edifício, de tão grande. E eu procurei lá “Amaral Tarsila”. Ela estava morando na rua Albuquerque Lins. Acabei visitando Tarsila duas vezes. Ela recebia muito bem as pessoas desconhecidas, como éramos. Tão jovens! Na primeira vez, estava sendo montada a grande retrospectiva do final dos anos sessenta. Parece que não podia tirar fotografia, mas eu também estava sem câmera. A conversa foi muito legal.
A Artéria completou 50 anos agora. Quais são as suas paixões para esse momento da vida?
— Olha, eu ainda gosto muito de livro. Eu escrevo diariamente e tenho novos poemas também. O tema central da minha poética é o pornoerotismo. A minha maior paixão é a escrituração, tanto da poesia como da prosa, mas também continuo colecionando documentos que têm a ver com poesia intersemiótica. A pintura acabou ficando em segundo lugar, mas eu desenho também diariamente.
“Se o Borges falava que o paraíso para ele se configurava na forma de uma biblioteca, para mim é o museu!”
Uma última pergunta: o que é que te faz arrepiar pensando em arte?
— Desde criança eu era fanático por livros ilustrados que trouxessem obras dos grandes mestres. Se o Borges falava que o paraíso para ele se configurava na forma de uma biblioteca, para mim é o museu! O museu pra mim é um presente divino. Já fui mais de quatrocentas vezes ao MASP, às vezes pra ver um único quadro. O Prado é um encanto. Para quem ama pintura, podia começar pelo MASP, que é um museu pequeno, com algumas obras-primas, e depois pegar um avião e ir até o Prado. Depois o Louvre, o Rijksmuseum, em Amsterdã. Museu para mim se configura como o paraíso.
Logo após esta conversa, eu e Omar seguimos para a cozinha. Já não era mais uma entrevista, mas uma conversa sobre arte regada a bolinhos e café em uma tarde chuvosa em Higienópolis. Devo compartilhar a certeza de que o apetite do meu entrevistado é contagiante. Escutar suas histórias, por certo, também foi uma experiência paradisíaca.
